Pesquisa da UFFS apresenta perfil das pessoas com câncer no Alto Uruguai
(Foto: A nutricionista Tanise Fitarelli Pandolfi Fridrich, autora do estudo (Créditos: Acervo pessoal)
Estudo
desenvolvido na UFFS destaca tipos de câncer mais prevalentes, grande índice de
sobrepeso nos pacientes e incidência em trabalhadores da agricultura, entre
outros dados.
Uma
pesquisa desenvolvida no Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas, da
Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) Campus Erechim, apresenta um
perfil das pessoas com câncer que residem na região do Alto Uruguai. O estudo
foi realizado pela acadêmica Tanise Fitarelli Pandolfi Fridrich. Ela analisou
dados dos prontuários de 377 pacientes, atendidos em maio deste ano na Unidade
de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) da Fundação
Hospitalar Santa Terezinha de Erechim (FHSTE), que atende a população de 85
municípios. Tanise atua como nutricionista na Unacon.
Além
de analisar os dados dos prontuários, a acadêmica realizou entrevistas com os
pacientes nas salas de quimioterapia. “O que propomos é interpretar os fatos
sociais, como a totalidade das maneiras de pensar, agir e sentir, estas segundo
a identidade do paciente, entretanto, com uma construção externa, baseada em
hábitos culturais e coletivos”, explica a autora da pesquisa. A dissertação de
mestrado teve orientação do professor Alexandre Paulo Loro.
Faixa
etária
Ao observar a idade dos pacientes, o estudo apontou a prevalência de idosos, corroborando com o perfil populacional mundial e também da nação, que está em processo de envelhecimento. No total, 68,8% dos pacientes tem 60 anos ou mais. A média de idade encontrada foi de 63,9 anos, reforçando a prevalência do câncer em idosos.
Tipos
de câncer
Entre
os 377 pacientes, os tipos de tumores mais prevalentes são:
1º)
câncer de mama: 26,5%;
2º)
câncer de próstata: 22,5%;
3º)
câncer de intestino: 6,1%;
4º)
câncer de pulmão: 5,5%;
5º)
câncer de reto: 4,7%;
6º)
câncer de estômago: 4,2%;
7º)
linfomas: 3,4%;
8º)
mielomas e câncer de pâncreas, ambos com 2,9;
9º)
câncer de bexiga: 2,1%.
Quando
separada por sexo, a prevalência é a seguinte:
Sexo
masculino: tumores de próstata (85 casos, representado 45,9%), seguido de 14
casos de tumores em reto (7,5%) e de 10 casos de tumores de estômago (5,4%).
Sexo
feminino: mama com 99 casos (51,5%), seguido de tumor de pulmão e de intestino
com 12 casos cada (6,2%).
A
pesquisa mostra que 100% dos casos de próstata são em homens com mais de 50
anos, enquanto 73% dos casos de mama são em mulheres acima de 50 anos.
- A
mudança demográfica no Brasil e consequentemente o envelhecimento da população
têm aumentado a incidência de câncer de mama e próstata. Uma das causas do
aumento dos números é pelo acesso a serviços de saúde e, em consequência, o seu
diagnóstico. Entretanto, falando em Brasil, ainda temos um quadro de
disparidade, onde muitas vezes o diagnóstico de pessoas com baixa renda é
tardio o que aumenta o risco de morte desses pacientes – diz Tanise.
Presença
de outras doenças antes do câncer
Conforme
a autora do estudo, a presença de outras doenças é importante para pacientes
oncológicos, não em questão ao risco da doença, mas em relação à sobrevida e a
morbidade. Dos pacientes analisados, 55,4% relataram apresentar alguma outra
doença prévia ao câncer, sendo que as principais foram: hipertensão (41,1%),
pré-diabetes ou diabetes (14,3%), dislipidemia (10%), outro tipo de câncer (9,2%)
e alguma cardiopatia (5,3%).
Peso
Considerando
todos os pacientes, 51,9% está com algum grau de sobrepeso.
Pacientes
com menos de 60 anos:
- 2,5%
com baixo peso;
-
30,2% dentro da normalidade ou eutrofia;
-
36,9% com sobrepeso;
-
29,4% em obesidade.
Pacientes
com mais de 60 anos:
-
13,1% com baixo peso;
-
33,3% dentro da normalidade ou eutrofia;
-
45,3% com sobrepeso.
Da
amostra total, a pesquisa não obtive dados suficientes de 22 pacientes (5,8%).
Ocupação
Há
uma prevalência de trabalhadores da agricultura (agricultor, técnico agrícola)
com 146 pacientes com essa ocupação (38,7%). Em segundo lugar aparecem 59
pacientes que se classificam como “do lar” (15,6%); 31 pacientes (8,2%) que
trabalham em áreas de comércio; 25 pacientes (6,6%) em áreas administrativas
(administrador, advogado, analista fiscal, assistente financeiro, assistente
técnico, atendente comercial, auxiliar administrativo, auxiliar de
contabilidade, auxiliar de escritório, comprador, contabilidade, crediarista,
empresário, funcionário público, secretária, supervisor); 21 pacientes (5,5%)
em trabalhos relacionados à indústria; 16 pacientes (4,2%) em serviços gerais
(babá, diarista, doméstica, serviços gerais); 15 pacientes (3,9%) da construção
civil (carpinteiro, construtor, eletricista, pedreiro, pintor, servente); 14
pacientes (3,7%) aposentados, 10 pacientes (2,6%) são motoristas ou taxistas;
10 pacientes (2,6%) não apresentam ocupação; 8 pacientes (2,1%) da área da
saúde; 5 pacientes (1,3%) trabalham na área automotiva (auxiliar de mecânico,
borracheiro, mecânico), outros 5 (1,3%) no ramo da estética (barbeiro,
cabeleireira, manicure); 5 (1,3%) são professores e 5 (1,3%) apresentam outras
profissões (garimpeiro, lenhador, marinheiro, vigilante).
-
Trazer a análise da ocupação/profissão dos pacientes é um ponto muito
importante, visto que uma boa parte dos cânceres tem relação com fatores
ambientais. As exposições podem ocorrer ao longo da vida e em diversas
ocasiões, contudo os ambientes laborais são ponto importante de contaminação
para os adultos, muitas vezes são desconsiderados, e podem aumentar o risco do
câncer para ele e, ainda, para seus descendentes – conta a autora do estudo.
-
Alguns exemplos que podemos considerar são os agricultores em contato com os
agrotóxicos, os motoristas e mecânicos em contato com derivados de petróleo, os
profissionais de construção e da indústria em contato com produtos químicos, os
profissionais da
estética,
e também os profissionais de saúde em contato com agentes infecciosos e
radiação.
Escolaridade
Quanto
à escolaridade dos pacientes, 72,9% apresentam, no máximo, o ensino
fundamental. Com nível médio (completo e incompleto) temos 70 pacientes
(18,57%), nível técnico 3 pacientes (0,8%) e nível superior ou além 17 pessoas
(4,51%).
Conforme
a pesquisadora, avaliar a escolaridade é um fator importante por saber-se que a
baixa escolaridade é um dos pontos relacionados com o aumento ao risco para o
desenvolvimento do câncer.
-
Entender que 72,9% dos pacientes tem no máximo o ensino fundamental mostra a
fragilidade da educação em nosso país. A baixa escolaridade pode ser
relacionada com uma maior dificuldade de compreensão e análise crítica das
informações, colocando esta população em situação de vulnerabilidade – explica
Tanise.
Dos
275 pacientes que possuem no máximo o ensino fundamental completo, 205 têm mais
do que 60 anos, representando 74,5% desta amostra.
Distribuição
por municípios
O
estudo aponta que da população atendida pelo FHSTE no período analisado, o
município com maior número de pacientes é o de Erechim com 116 pessoas em
atendimento (30,7%), seguido por Getúlio Vargas com 23 pacientes (6,1%) e
Frederico Westphalen com 16 pacientes (4,2%). Considerando a divisão por
coordenadorias regionais de saúde, há uma prevalência de pacientes da 11ª CRS
(76,6%). Depois aparece a 2ª CRS com 84 pacientes (22,2%) e, finalmente, a 15ª
CRS com 4 pacientes (1,06%).
Área
de habitação
O
levantamento mostrou que 69,5% dos pacientes residem em áreas urbanas, enquanto
30,5% residem em áreas rurais.
Tabaco
No
total, 35,2% dos pacientes tiveram algum tipo de contato com o tabaco, sendo
que 15,3% são tabagistas ativos, 17,5% cessaram o consumo e 2,3% pessoas são
tabagistas passivas. Quase metade dos pacientes nega o contato com o fumo
(47,4%) e em 17,2% há falta de informação - em muitos casos por falta de
preenchimento dos dados no prontuário médico.
Álcool
A
maioria dos pacientes (62,8%) nega que consome bebida alcoólica, enquanto 8,7%
afirma fazer a ingestão. Do total, 7,1% relatam que pararam de ingerir a
bebida. Ainda, 2,9% disseram que consumem apenas de forma social. A pesquisa
não obteve informação de 18,3% dos pacientes por falta de informação no
prontuário.
Histórico
familiar
Sobre
o histórico familiar de câncer, a pesquisa encontrou associação positiva em
26,7% dos casos, enquanto 37,9% nega haver casos de câncer na família. Três
pacientes não sabem se existe algum familiar com esta doença e, no prontuário
de 130 participantes, não há essa informação registrada.
Tempo
de espera
Quanto
ao tempo de espera entre diagnóstico e início do tratamento quimioterápico,
37,1% dos pacientes esperaram no máximo 1 mês, 22,2% esperaram 2 meses e 13,7%
esperam 3 meses para iniciar o tratamento. Foi reforçado que, em acordo com a
legislação, cerca de 73% dos pacientes consegue iniciar o tratamento dentro do
tempo estimado. É preciso considerar para os demais que há casos que passam por
outros procedimentos anteriormente, e, ainda, que abandonam o tratamento.
Entrevista
Tanise
entrevistou 16 pacientes que estavam iniciando quimioterapia naquele mês. Eles
representam uma amostra dos 50 pacientes iniciantes dentre os 377 prontuários
analisados. Esta segunda parte dos estudos apresenta outras informações
relevantes. Um dos pontos, por exemplo, é a prevalência de atividades laborais
ativas entre os pacientes e, ao mesmo tempo, a não prevalência do hábito do
exercício físico regular.
Nos
homens, o exercício que apareceu foi o futebol, entretanto, ele se destaca nos
pacientes jovens, sendo que muitos deixaram a prática ao envelhecer. Já entre
as mulheres, a caminhada foi a atividade mais exercida.
A
justificativa apresentada por aqueles que não exercem atividades físicas é a
sua atividade laboral intensa (na agricultura, na construção ou em
madeireiras).
A
percepção geral da autora, com as entrevistas, é de que a prevenção é ainda a
melhor forma de evitar a doença - e em especial a progressão dela. “Por essa
razão, investir em uma atenção primária mais assertiva que realize os exames de
rotina na população e, principalmente, que atue de forma educativa no incentivo
de um estilo de vida saudável, é de extrema importância para mudarmos a
perspectiva dos números do câncer”, destaca.
Saúde
e ciências humanas
“Atuar
dentro das ciências humanas permite que o profissional da saúde amplie seus
horizontes. Na área da saúde, em geral, somos formados para analisar dados e
atuar dentro de uma ‘medicina baseada em evidências’ que é válida, afinal é
através disso que temos os avanços de saúde que acompanhamos todos os dias.
Entretanto, trazer o paciente para além do número, e entendê-lo como um ser
único, completo e que está inserido em uma cultura, faz com que esses números
ganhem vida, a ponto de compreendermos, mais além, o porquê de muitas vezes
algumas ações, que do ponto de vista técnico são tão simples, acabam não
virando parte da realidade da população”, complementa Tanise.
O Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas é um dos quatro mestrados ofertados pela UFFS no Campus Erechim. Todos os cursos são gratuitos. Saiba mais em https://www.uffs.edu.br/campi/erechim/cursos/mestrado.
Por
Wagner Lenhardt Jornalista Ascom UFFS Campus Erechim